Uma Filosofia de trabalho criada há 50 anos resistiu ao tempo se mostrou importante pelos resultados e agora  atual e necessária  pode potencializar uma transformação no pensar futebol através de uma visão sistêmica e, sobretudo, uma transformação social.

Filosofia de trabalho criada há 50 anos pelo Professor, Treinador, Advogado, Psicólogo, escritor e poeta José Rossi um visionário, idealista seguro em suas convicções, que nos deixou um grande legado educacional e esportivo com bases na cidade de São Bernardo do Campo e teve influência impactante na minha vida e na formação de centenas de jovens.

Nosso objetivo aqui é trazer uma reflexão sobre a formação de nossos jovens seja cidadã ou esportiva, mais uma dentre tantas que não esgotam nem delimitam discussões sobre as mais variadas interferências  que atuam nestas formações.

Desta vez não nos aprofundamos nas questões físicas, técnicas, táticas, porém abordamos muitas outras tão importantes quanto, que bem ajustadas, conscientes e desenvolvidas interferem positivamente em todo o processo. O elemento norteador principal abordado em questão é o ser humano seguido pelo jogador de futebol, se ambos forem desenvolvidos juntos pode-se alcançar  uma boa aprendizagem esportivo-educacional, entretanto os que alcançam tal aprendizagem podem tornar-se capazes de influenciar de forma positiva o meio onde estiverem inseridos.

Porém a realidade construída por um processo ineficiente, vicioso e imediatista geralmente não nos permite tal aprendizagem em sua totalidade, primeiro o ser humano depois o jogador de futebol, não raramente se inverte as prioridades, ou seja, ser jogador de futebol de qualquer forma com todas as forças a todo custo, e se não der certo, depois em segundo plano vejamos como fica o ser humano e sua formação educacional como cidadão. Acreditamos que uma boa educação seguida de conhecimento é a base do ser humano que impreterivelmente é conquistada com leitura, pois é através dela que podemos aumentar o conhecimento, enriquecer nosso vocabulário, dinamizar o raciocínio e a interpretação e ter censo crítico.  Através desta educação podemos desenvolver qualidades e competências que nos auxiliam bem em nossa vida social em diversas áreas e ambientes como: família, trabalho, planejamento pós carreira  e principalmente ao jogador de futebol no entendimento e assimilação de um futebol que se mostra cada vez mais complexo e exigente na compreensão do jogo .

Cremos na transformação pelo conhecimento, “Bola nos pés e Livro nas mãos” não é somente uma frase e sim uma filosofia de trabalho necessária,  que poderá potencializar uma transformação no pensar futebol através de uma visão sistêmica e, sobretudo, uma transformação social. Mudanças necessárias para a evolução e desenvolvimento de nosso futebol também passam pela educação e cultura de todos envolvidos nesse universo. Porém nossa realidade nos mostra o quanto devemos melhorar, sobretudo na área cultural.

Pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro revela que a média de leitura da população brasileira melhorou, porém ainda é muito baixa, os números já foram de apenas 1,3 livros por ano, segundo a bibliotecária Wilma Nóbrega  percentual abaixo da Colômbia, com 2,4, esse número é considerado baixo, em comparação com outros países, a exemplo dos Estados Unidos, cuja média anual é de 5,1 e a França tem uma das maiores médias, com sete livros lidos por ano por pessoa.

Além dos componentes voltados á formação física e técnica, os clubes deveriam ter uma preocupação com estrutura e condições para a formação educacional de seus atletas, realmente com o foco no ser humano, no cidadão. Dificilmente uma criança ou jovem não tem o sonho em ser jogador de futebol, porém muitos são os obstáculos e adversidades que interferem nesta realização e a maioria não consegue seu objetivo. Como administrar esta decepção ou frustração se não estiver devidamente preparado para tal?

A nossa preocupação na base tem sido a categoria sub 20, é esta que precisa ter um olhar especial já que é uma faixa etária de transições e definições, A Categoria sub 20 pode ser o fim de um sonho com mudança de rota ou para quem passar pelo funil o começo de uma carreira como jogador profissional que sem dúvida será muito difícil.

Nesta categoria o atleta encontra-se numa zona cinzenta com muito mais competitividade, um verdadeiro funil onde o mercado proporciona poucas vagas para uma demanda extremamente desproporcional. E se até os 20 anos de idade o atleta não se tornou um profissional, com 21 anos ele já não pode mais atuar como amador.

Ao analisarmos as informações constantes no site da Federação Paulista de Futebol referente á Taça São Paulo, podemos verificar o seguinte: dos três últimos anos da competição poucas são as equipes que conseguem manter os mesmos atletas por 2 ou 3 anos, ou seja, há uma rotatividade muito grande nos elencos sinalizando descontinuidade, em um universo de 2.600 atletas poderíamos ter mais revelações e jogadores prontos para o profissional. Onde estão os jogadores que não foram aproveitados? Estão tendo suas oportunidades? Em um momento de definição e transição da categoria juniores para a profissional, estão sendo avaliados de forma coerente para serem dispensados ou promovidos?

Enfim a história, os números, as poucas revelações apresentadas neste panorama nos fazem repensarmos se as categorias de base e suas competições, sobretudo a Taça São Paulo estão sendo eficientes e estão atingindo os objetivos (que não devem ser só o esportivo), ou seja, em que de fato estamos formando nossos jovens?

Existem clubes que em suas categorias de base incentivam a freqüência escolar e outros colocam isso até como uma condição para que o atleta possa jogar e participar dos campeonatos, porém geralmente este olhar vai até a categoria sub 17 ou 18 onde se subentende que o atleta finalizou o ensino médio. Infelizmente não encontramos registros sobre este assunto nos apontando quantos clubes realizam este trabalho, mas sabemos que são poucos, a maioria que não realiza possui menos estrutura e recursos.

Na edição da Taça São Paulo de 2015 abordamos algumas equipes e atletas com o objetivo de saber como tem sido feito o trabalho do clube na questão educacional e qual a situação escolar dos atletas, com 18, 19 e 20 anos, que já poderiam ter finalizado o ensino médio e/ou cursando uma faculdade, porém a realidade esta um pouco distante disto. Sabemos que é difícil conciliar treinos, viagens e estudos e muitos quando se tornam profissionais abandonam os estudos. E como será para aqueles que após os 20 anos não se tornaram jogador profissional? Estão preparados para enfrentarem a vida, sobretudo profissional fora dos gramados?

Existem realidades e cultura diferentes de outros países, como os Estados Unidos onde em vários esportes o atleta primeiro entra em uma universidade para depois aderir á profissionalização.

Por outro lado, em todos os lugares onde se utilizam o futebol como ferramenta educacional devemos ter através desta educação profissionais/educadores capacitados com experiências e conteúdos preparados para ensinar além do futebol, ensinamentos para a vida, abordando temas como: alimentação, saúde, meio ambiente, valores morais, éticos entre outros.

Se não conseguirmos transformar nosso futebol nem formar jogadores de futebol, ao menos teremos uma sociedade melhor construída por pessoas que através do futebol puderam ser transformadas adquirindo educação, cultura e conhecimento.

José Luiz Correa

Graduado em Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes, Pós Graduado em Futebol pela USP, Gestor Esportivo e ex-atleta de futebol.